Apesar da chuva e da lama, conseguimos levantar poeira, ao correr por aquele cais fora à procura da carruagem que nos irá levar a uma nova vida… acordo com o sentimento de dever muito antes do compromisso do despertador e interrogo-me já dentro da carruagem, não aquela com que sonhei, mas a real a que me leva e trás todos os dias, se alguma vez saberei identificar a fronteira que separa este instinto em olhar para tudo como sendo um desafio, um obstáculo a ultrapassar, uma vitória a conquistar e o bom senso de viver com o limite que todos nós acusamos um dia!?! Começo apesar disso a reconhecer o cansaço como um novo inquilino das frustradas expectativas que o mundo nos suscita. A amargura de não ter gente à altura de promover a nossa militância bem como identificando as nossas competências, fazer de nós um motor de desenvolvimento, numa visão global do sistema e não um acessório para os seus protagonismos. A porta da carruagem abre e vejo entrar a corrente de ar fria da madrugada que faz enregelar estes demónios, que pese embora a sua existência, decido não lhes dar mais importância do que à missão para que me destaquei…
Domingo, Fevereiro 05, 2012
Sábado, Dezembro 31, 2011
Eu nunca tive fé!
A dada altura dei conta ser devoto ao Cosmos, como coisa que tudo já foi, como coisa que tudo é e tudo será. Acredito de uma forma absolutamente derradeira, que a Natureza tem o dom de se auto-regenerar e que o Homem tem um papel secundário na realidade que conhece! Hoje, a Humanidade vê-se a caminhar por uma estrada que construiu e que está enlaçada de um nevoeiro opaco, muito à imagem do espírito de uma grande maioria de nós. Os enredos das últimas décadas, aceleraram em muito esse movimento de auto-regeneração a que as sociedades estão a ser sujeitas! Os dias de hoje já não convidam ás guerras do passado, até porque já não existem generais… em contra partida a propaganda tem criado e alimentado fantasias nas mentes mais veneráveis, que a prazo vem confirmar a existência de estados irreversíveis de miséria material e espiritual. É minha vontade ser parte activa do pelotão que vai romper a multidão parada na estrada à espera que este nevoeiro se dissipe! Os desafios são como os bebés no berço, pouco se parecem com o Homem no qual se transformaram, contudo a minha determinação faz-me acreditar que iremos sair renovados desta sombria conjuntura que se instalou nas nossas vidas, mesmo que isso implique uma perca parcial do que temos hoje. O que me assusta não é perder capacidade material, mas antes olhar em volta e certificar-me que perdemos a capacidade de Amar. É o altruísmo de amar que nos tornas únicos no Cosmos. O Ano que espreita não será a confirmação da destruição de coisa nenhuma, mas pode ser o inicio de uma mudança de mentalidade, que as gerações vindouras nos agradeceram que tenhamos iniciado.
Domingo, Dezembro 04, 2011
Pouco passa das 5h30m. De modo a poder desfazer a barba que floresceu numa rua comprida nesta noite densa, procuro acordar o espelho ainda abraçado ás torneiras da bacia que em murmúrios de morte, apela ao esquentador que aqueça a água que lhe percorre as entranhas. Lá fora num ramo de uma árvore sem nome, um pássaro desmemorizado, sorri em busca do sol, numa tarde que já desejava que fosse Primavera. Cá dentro, procuro compreender o tacto que ao percorrer o meu rosto inspecciona a possível presença de um pelo dissidente! Num acto puramente formatado, faço girar sobre mim, o cortinado do poliban e deixo-me ensopar… antes de dizer adeus, assisto ás tuas pestanas a descerem e a subirem devagar, próprio de quem ainda não despertou. É sublime a saudade que se gera dentro de nós, quando se ama. Tão distante do poder que sentimos quando se controla!?! Levo comigo o teu cheiro preso entre os dedos das mãos, no gesto que deixei para trás quando acariciei os teus cabelos, num estado de fúria de mar!
Quarta-feira, Outubro 05, 2011

Cheguei hoje, depois de alguns meses ausente. Andei por aí a ouvir o desabafo das lágrimas que caminham de Leste em direcção à Ibéria, como o vento que desce da montanha em direcção à planície! Enquanto outros já questionam o seu modelo de vida, por cá ainda se assiste a alguns luxos czaristas! Os Lusos sempre foram dotados de uma estranha é poderosa fé! Creio que estamos prestes a pôr a toda a prova esta capacidade de acreditar que o Cosmos olha sempre por nós!?! O deslumbramento que ganhamos e alimentamos ao longo das últimas décadas, desafiam o mais tolerante dos deuses, chegamos à fronteira do tempo onde a carência de gerar uma revolução no nosso pensamento colectivo está a expirar. As sociedades estão a implodir na consequência do abandono dos valores que faz do Homem um ser que se auto-sustenta. A esquizofrenia de que tudo o que sempre quisemos foi tudo, gerou uma reacção em cadeia que apesar das sucessivas tentativas, parece que ninguém está habilitado para a estancar! O som dos tambores chama para as fileiras de combate, gente altruísta e que não ceda à tentação do sétimo pecado capital.

Sábado, Junho 25, 2011
Numa viagem que necessita de pouco mais de 8 minutos, o Sol chega e cobre toda a minha superfície, provocando o efeito de uma brasa incandescente, que esmorece à medida que o dia se consome com o mar sempre a jorrar champagne salgado, sobre um plano inclinado de areia, que acolheu a minha presença, como se eu fosse uma concha sem bivalve. Atrás de mim e na vertical, as escarpas fazem deste lugar uma enseada preenchida de seres voadores, que ocasionalmente proporcionam eclipses solares quando se interpõem entre o sagrado e o profano. Resisto ao fascínio de assistir a toda esta interacção e mantenho-me de olhos fechados, por saber que a luz pode enlouquecer-me e tomo consciência de que para sentir falta de algo, não necessito da evasão da sua presença! Quando a noite caí, faz tempo que estou acordado, desafi-o o sono a não apagar da minha mente tudo o que fiz hoje, para amanhã ter presente o conforto deste lugar.
Sábado, Junho 04, 2011
Quando o dia boceja num lento acordar, já estou apostos nas trincheiras cuja areia cobre as minhas ensanguentadas feridas, conquistadas sob a voz de comando de generais que acreditam na vitoria com a mesma confiança que não dorme dentro de mim, o que fazem deles líderes como a minha geração necessita saber existir! Alguém deixa escapar uma prece antes da besta dirigir uma nova investida contra os nossos frágeis corpos. Volto a sentir o medo do avesso como no dia em que o meu coração me disse que estava preparado para ser pai e deu-se o desejo ter uma filha com o brilho de uma Supernova… o embate do projéctil deixa-me temporariamente surdo e os meus olhos começam a ter um contacto intermitente com a realidade, à minha volta o vermelho domina e sinto num crescendo as sombras a tomarem conta de mim como um afago e caio sobre os corpos que jazem no chão. Acordo na margem do cais onde
desembarcamos para este evento e assisto à minha passagem para casa num duelo balístico, a fazer recordar as longas e quentes discussões de duas pessoas cujo amor perdeu a validade. A bordo e em alto mar, procuro perceber a validade desta estóica obstinação de representar um ideal que não foi uma criação minha! Questiono se ainda serei um espírito livre ou se vivo escravizado de uma sofisticada propaganda que subliminei num período de paz?!? Quero sentir a chave a acomodar-se dentro da fechadura e entrar em casa, seja ela onde for, pois faz tantos anos que não vou a casa, que me esqueci do lugar a que pertenço. Quantos anos passaram se estamos em 2027, desde que te beijei a última vez? Terá a nossa filha conseguido embarcado no projecto de colonização de Andrômeda?! O efeito turbinado da adrenalina começa a abrandar e o lado humano que ainda existe dentro deste corpo que já não me pertence, ajuda-me a recorrer ás memórias do que me prende à vida; à vida; à vida... lanço ao mar a faca da verdade como um grito de ataque, de um escravo que conquista a liberdade. Só o meu amor por ti, permanece para toda a vida. Quinta-feira, Maio 12, 2011

Subo a uma árvore com reentrâncias como a terra seca, morta como eu um dia estarei num tempo que estimo a anos de luz da actualidade, numa era que imagino poder ainda sentir com esta garra de quem está prestes a concluir a primeira trintena no planeta azul, a satisfação de saber que reina dentro de mim, a afirmação de que se a vida é um momento no universo, o amor que sinto por ti é uma eternidade no cosmos. E mesmo nos dias em que afago a sede com as ultimas lágrimas que desejo que o sol veja correr pelo meu rosto, no rescaldo da animosidade de uma experiencia que não durou mais do que o tempo estritamente necessário à travessia de uma passadeira para peões, que nos conduz em segurança ao lado oculto do nosso dia, não sinto a minha alma menor, bem pelo contrário, um Homem que se revolta é um Homem livre e só sendo livre se consegue amar com esta determinação, o que construímos em nosso redor. E é sobre os robustos ramos do espírito da árvore que me escutou, que procuro descer, enquanto ele continua a narrar factos vividos que lhe proporcionaram a glória da longevidade, para quem a abstracção do tempo deixou há muito de ser uma realidade, para sobre o brilho alaranjado do horizonte assistir à cremação dos meus demónios.

